... Eu não tenho peixe para
grelhar. Só congelado e para cozer. Não vou conseguir ir à praça. Peixe
grelhado congelado desfaz-se. Pelo menos feito por mim. E a casa fica a cheirar
a peixe. E é de noite e não me apetece. E não como batatas nem hidratos de
carbono. E tu estás a dar-me muito trabalho. Aliás, quem paga o jantar és tu;
no fim de contas, dou-te jantar e uma cama onde vais deitar. Dou-te uma vulva e
dou-te uma cabeça para pensares. Vou-te por a trabalhar. É isso mesmo. Vou
pôr-te a trabalhar de trela. Não. Estava a brincar. Não te quero de trela.
Quero-te como és. Assim. Tal e qual como és, meio rebelde, meio filho da
puta, meio poeta, meio distância, meio estudante, meio professor, meio
cabrão e meio mentiroso. Logo se vê. Sabes, gosto de saladas. Gosto
de tudo misturado. Peixe cozido com legumes misturado, alface e rúcula e
salsa misturada. É simples, não achas? É simples, é fácil e deixa-nos
tempo livre. Ou tu comes uma coisa e eu outra. Peixe cozido ou peitos de
frango. Refiro-me à ave. Eu tenho o que tenho e tu decides depois o que
cozinhar. Com o que existir no frigorífico, ou na cama. Queres que te
excite antes? Se te excito, lá está, não cozinhas o jantar.
Ou então jantamos às 11. Ou não jantamos. Sabes? Na realidade não
estou muito bem. Tento estar. É. As impossibilidades. Mas levanto-me. E
trabalho. E tento. E fujo de pensar. E não sei se serei a melhor companhia.
Ainda que me queira perder nos teus braços. Não sei. Não sei. Mas Quero que me
fodas. Ponto final. Quero sentir-te dentro de mim. Quero que me lambas as mamas.
E o sexo. E que me agarres. E que me beijes. Nos mamilos. No pescoço
e nas costas. E que me beijes e ames. E te percas no meu corpo. No meu
corpo malga onde a tua fome é saciada. A realidade é que me sinto destituída. E
esforço-me por me sentir alguém. Alguém merecedor de ser alguém. A realidade.
Desculpa-me. Ou não. Sou esta. A realidade é que quero que me acaricies para me
compensar da mágoa. E da dor. E das expectativas que tive. E
da ansiedade. Não sei se te quero para amante. Não sei te quero para
amante porque já não me apaixono, já não tenho homem, deixou-me ou terei sido
eu a deixá-lo. Podes ser meu amante, sendo o único, sendo eu a única? Não sei.
Podes claro. Mas não no contexto que pensava. E idealizava. Mas quero-te.
Quero-te sentir. E peço-te paciência. E manda-me à merda. Podes mandar. Quero que
me fodas assim que chegares a minha casa.
Hadiths do lado negro
Conjunto de lendas, mitos, ideias, reflexões, verdades, mentiras e ambiguidades de Helel Ben Shahar e Lúcio Ferro. Os Hadiths são credos e são mandamentos. São mais do que isso e em simultâneo são infinitamente menos.
2019/02/24
2019/02/21
Dos Hadiths, dos marevedis e dos curriculums
‘Tou, Lúcio, que sorte que ainda aí estás! Sim, diz, de que se trata? Concentra-te Lúcio, concentra-te pá, só um bocadinho que tens de ir ao meu gabinete procurar-me um número. Um número? Sim pá, depressa, um número que está no meu gabinete, e que preciso para ontem, Lúcio. Momento, Ferro. Estou, Lúcio, já o encontraste, já encontraste o número? Mais do que um meu caro, muitos, ouve lá, aqui entre nós, um número de quê e enfiado onde, importas-te de me dizer? Epá, um número que está num dos processos, um dos mais volumosos. Amiguinho, tens aqui para cima de 300 processos pendentes, queres que os vá desfolhando, ao fluir deste saudável momento, enquanto aguardas serenamente?
Epá, não brinques com coisas sérias, abre o processo, é um grande, com cuidado que tem folhas soltas, isto tem de seguir ainda hoje, caso contrário estou lixado, preciso do número, é um número numa folha vermelha que está na pasta do processo, um processo gordo, um dos mais volumosos!... Folgo em sabê-lo. Folgas o tanas, vai buscar o processo, caralho!
Eu logo vi que hoje não era o meu dia de sorte, estamos menos bem Ferro, agora acalma os cavalos e diz-me o número do processo, se fazes favor. É o 23, Alínea 14, tribunal de 1ª instância da Boa Hora…. O processo 23, Alínea 13, Acórdão XII, será este? Epá, despacha-te, estou a ficar sem bateria e isto está para fechar! Ora, recapitulando, um papel vermelho, com um número no processo nº 23, correcto? Sim, com o cabeçalho vermelho, tem lá o número que eu preciso! Um cabeçalho vermelho... Será um receit electrónico do United Credit Bank, a seguir a uns papéis fajutos do ICEP?...
Exactamente! Vê lá o número, no canto inferior do lado esquerdo! Hmm... Olha, desculpa mas acho que não estou a ver número nenhum, não tem... Tem de estar aí Lúcio, no canto inferior esquerdo, Lúcio! Ah... Espera... Talvez seja isto, disseste que o número começava por?... ‘Peraí, Lúcio, o número começa, deixa-me ver, oito, onze, setenta; sim, o número começa por oito, onze, setenta, tenho a certeza! Confirmado Ferro, é esse o número. Certíssimo Lúcio, vou já enviar isto, grande Lúcio, olha, depois vem ter comigo à Baixa e vamos cear a uma marisqueira onde me conhecem, por minha conta! Não vai dar amigo, hoje não estou a trabalhar só para ti, estou a trabalhar para ganhar o meu. A trabalhar, tu, a um sábado à noite? Oh, oh, oh, é a vida. Já não era sem tempo pá, e o que «trabalhas» tu, ao certo?...
Currículos. Estou a preparar uma série de currículos, maravedis e tal, sabes como é, nem todos têm a sorte de nascer num berço dourado ou de terem uma aptidão natural para o gamanço como tu, e eu, pois, gosto de corrigir currículos.
Deixa-te disso pá, os currículos é tudo uma treta pegada, não sabes? Saber sei, mas há os maravedis. Deixa-te de merdas, quais maravedis? Marevedis, meu caro, maravedis, os currículos e os maravedis estão interligados e nem sequer te vou explicar a origem epistemológica do termo. Deixa-te disso, enfia-te no metro e vem mas é beber umas imperiais e petiscar camarão aqui à Baixa, anda lá. Não posso mesmo mate, para além do mais, é tarde, fica para outro dia, o 30, sabes que é nosso. Ah, compreendi, é preparação de currículo à séria, deve estar a ficar um belo dum currículo, para te trazer assim tão dedicado, tão bem comportado, tão empenhado e disciplinado, tens de mo dar a conhecer, o teu currículo... Lá vais tu, já todo lançado nas tuas insinuações soezes, o que tu és é um crápula, mas diverte-te pá, até amanhã. Até amanhã Lúcio e... Obrigado.
Revoluções:
Dá-me lume,
gemütlich,
Praxis Teórica
2019/02/09
Um Hadith apolítico
Uma
pergunta indiscreta: agora que o ultimato já veio e já se foi, agora que os
soldadinhos de chumbo do GOE já se foram e já se vieram, com as malas
diplomáticas e outros brinquedinhos entre as pernas, agora que os tipos de lá
já vieram avisar, com todas as letrinhas, que a Diáspora lusa local pode vir a
pagar bem caro todos estes desvarios, quanto tempo faltará até que o ainda
locatário das Necessidades, Augusto Santos Silva, "compreenda que o seu
tempo já acabou"?...
Revoluções:
Amanhã há mais,
Augusto Santos Silva,
Venezuela
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SOBRE OS AUTORES...
O Hadiths do Lado Negro é um blogue de dois amigos. Um dos amigos é um bêbado inveterado com jeito para a coisa. O outro amigo mandou tirar as amígdalas só porque lhe apeteceu e também tem jeito para a coisa, apesar de lhe faltarem as amígdalas. Salvo quando devidamente assinalado, todos os textos possuem direitos de autor.


